Coletivo PerifAnálise: Psicanalistas na periferia

11
Compartilhe a Verdade!

Compartilhe a Verdade:


Coletivo PerifAnálise conta como levaram a psicanálise para fora do centro e em que isso resultou

Criado às vésperas das eleições de 2018, diante das inquietações dos psicanalistas com os efeitos sobre a periferia, o coletivo PerifAnálise começou com três pessoas e um grupo de estudos.

Integrantes

Quando entrou para estudar no Instituto Sedes Sapientiae, um dos mais tradicionais em formação de psicanalistas do Brasil, localizado no bairro de Perdizes, na Zona Oeste de São Paulo, o psicólogo e psicanalista Jefferson Santos Pinto, de 35 anos e morador do distrito de São Mateus, no extremo leste da cidade, conta que se sentiu “praticamente num país nórdico”.
Além dele, os outros poucos negros na instituição eram o segurança e a faxineira.

Também psicóloga, psicanalista e moradora de São Mateus, Paula Eloisa Jameli, de 45 anos, levou dez anos para se formar na faculdade de psicologia.
Conciliando casa, filho, um trabalho no Jabaquara (na Zona Sul de São Paulo) e a faculdade em Itaquera, ela enfrentou horas de transporte e a falta de tempo e dinheiro para completar sua formação.

Rosimeire Bussola Santana Silva, de 33 anos e também de São Mateus, só foi ouvir falar da psicanálise na faculdade de psicologia.
Formada, já trabalhou no SUS (Sistema Único de Saúde) com medidas socioeducativas em meio aberto, quando adolescentes que cometem infrações cumprem pena sem privação de liberdade, e trabalha atualmente num Caps (Centro de Atenção Psicossocial), também no sistema público de saúde.

Juntos, os três integram a Clínica Psicanalítica PerifAnálise, coletivo de autointitulados “perifanalistas” que atuam em São Mateus.

Criado por mulheres, em resposta a retrocessos

Grafite na lateral da Favela Galeria, espaço onde funciona a PerifAnálise

“A PerifAnálise surgiu num momento de crise política, justamente porque um grupo de mulheres, por trabalhar na periferia e no serviço da assistência, se sentiu muito provocado e atravessado pelo contexto de retrocessos que estava se apresentando ali, às vésperas das eleições de 2018″, conta Paula, que começou a iniciativa com Rosimeire e mais uma colega, que haviam trabalhado juntas com medidas socioeducativas em meio aberto.

“Fomos pensando em fazer algo com isso, que estava nos provocando, nos inquietando e angustiando, porque sabíamos que isso poderia produzir muito mais precarização do que aquilo que já víamos acontecendo na periferia. As tantas dificuldades que nós, como estudantes, como trabalhadores, enfrentamos nas regiões periféricas”, completa.

Enquanto isso, no centro de São Paulo, avançava o movimento das Clínicas Públicas de Psicanálise, que visavam democratizar a prática, oferecendo atendimento gratuito em espaços públicos, como o centro cultural Vila Itororó, a Casa do Povo e a Praça Roosevelt, respectivamente nos bairros centrais do Bixiga, Bom Retiro e República.

“A gente começou a pensar: e a periferia?“, conta Meire, como Rosimeire é mais conhecida.

Favela Galeria

Com Jefferson já agregado ao grupo, agora com quatro pessoas, eles passaram a pensar em como adaptar a experiência das Clínicas Públicas de Psicanálise à realidade periférica.

“A primeira coisa que nos demos conta é que, se no centro as ruas e praças estão sendo ocupadas via psicanálise, na periferia, é sobre outra coisa“, diz Meire.
“A periferia já ocupa bastante a rua. As casas são pequenas, em geral não têm quintal, então as pessoas já ocupam bastante o espaço público.”

Em busca de um lugar em que os moradores pudessem ter uma experiência clínica um pouco mais reservada, o coletivo encontrou o espaço cultural Favela Galeria, na Vila Flavia, comunidade de São Mateus que é parte da história do movimento rap e do grafitti na Zona Leste.

“Começou com as pessoas dizendo, dentro mesmo da galeria, que estava rolando PerifAnálise. O famoso ‘boca a boca’, fazendo a palavra circular. Depois, apostamos na rede social, no Instagram”, conta Meire.

“Quando passamos a dizer: estamos aqui, venham, eles começaram a vir. E com isso, vieram as mais diversas histórias, as mais diversas vivências e estamos aí, desde então, podendo escutá-los.”

Ser psicanalista na periferia

“É ser psicanalista na periferia. É isso que me vem à cabeça. É ser psicanalista na periferia e que as pessoas possam vivenciar a experiência da clínica psicanalítica, caso elas queiram.” Diz Meire.

Sobre a mesma questão, Jefferson elabora um pouco mais.

“Na minha perspectiva, para além de ser um analista na periferia, o objetivo é também que esse seja um ofício comum. Quando fui convidado pela Paula e pela Meire para compor o PerifAnálise, eu estava estudando no Sedes, estava estudando no AMMA Psique e Negritude, ambos no Sumaré. E a minha analista é de Pinheiros”, conta Jefferson.

“Ou seja, eu gastava aí de seis a oito horas de transporte para poder me locomover para fazer essa formação. Para mim, o interesse é que tenha isso do lado de casa. E que o lado da minha casa não seja no centro.”

Atualmente, a PerifAnálise é formada por seis psicanalistas e duas pessoas no início da formação em psicanálise.
A iniciativa, porém, é alvo de questionamentos de outros profissionais da área.

”E a questão do território: a psicanálise pode acontecer fora de um consultório, pode acontecer na rua, pode acontecer em outros lugares. Muitas vezes somos questionados ‘Isso que vocês fazem é psicanálise?’
E essa pergunta revela o caráter elitista que ela tem. Porque parece que sai da mão de alguns e vai para a mão de outros e isso incomoda. E esse incômodo, sabemos de onde vem. É de descentralizar ela, de tornar ela popular”, completa Jefferson.

A questão do dinheiro

Outra diferença da PerifAnálise com relação às Clínicas Públicas de Psicanálise do centro de São Paulo diz respeito à relação com dinheiro.

“Quando começamos a PerifAnálise, num primeiro momento, o que nos veio à cabeça é que as pessoas da periferia poderiam não ter condições para arcar com o pagamento, justamente por serem pobres”, conta Paula.

“Vamos fazendo esse percurso na clínica, e essa ideia se desfaz. Claro, têm pessoas que nós atendemos que de fato não podem pagar. Mas têm pessoas que podem e, mais do que isso, elas querem pagar. Elas fazem questão de pagar. Então isso é algo que a gente vai tratando muito no caso a caso.”

“Essa questão do dinheiro é super delicada. Esse debate era rechaçado. Tinha uma questão de colocar como impossível acontecer uma psicanálise fora de parâmetros de mercado. O valor do dinheiro no inconsciente… O debate não era sobre o que se faz a partir de uma situação que alguém não pode pagar, não por um sintoma individual, mas por uma circunstância de classe e território.
Esse debate não podia muito acontecer, era sempre jogado pro campo do sintoma. Se não quer pagar, se não pode pagar, é porque tem algo ali a ser trabalhado como sintoma daquela pessoa e não de uma estrutura social.”

Luz p’ra Nós

 

Portais
 Fortaleça no merch.
escoladelucifer.com.br
unebrasil.org
unebrasil.com.br
unebrasil/livrolucifer
querovencer.unebrasil.com.br
congressodigital.unebrasil.com.br

 

Compartilhe a Verdade:


5 1 vote
Article Rating

Compartilhe a Verdade!

Carol M.

Entre com:




Subscribe
Notify of
11 Comentários
Most Voted
Newest Oldest
Inline Feedbacks
View all comments
Silvia Cristina Rodrigues
05/01/2021 2:23 pm

De grande importância, torcer para que ganhe força e cresça para as comunidades! LPN✨

Beatriz Belato
05/01/2021 3:58 pm

Gratidão pela matéria , Luz p’ra nós!

Camila Ribeiro
05/01/2021 4:53 pm

Luz pra nós!

Leonardo Moreira
05/01/2021 5:26 pm

Importante o desenvolvimento desse povo.
Luz P’ra Nós!

Shirley 666
05/01/2021 5:53 pm

Ótima iniciativa, que muitos outros profissionais cheguem a esse nivel de conscientização e faça algo pela população carente.
Luz p´ra nós.

Gustavo Borba
05/01/2021 7:26 pm

Luz p’ra nós!

José Ricardo Dos Santos
05/01/2021 11:35 pm

Luz p’ra nós.

José
06/01/2021 10:14 am

Luz pra nós

Bruna Sollara
06/01/2021 5:22 pm

Luz p’ra nós!

Maria Fernanda
07/01/2021 1:54 pm

Muito boa a ideia e a matéria! Gratidão… Luz p’ra nós!

Williams Rodriguez
08/01/2021 5:22 pm

Luz pra nós!

Next Post

Civil palestino fica tetraplégico após ser ferido por soldado israelense

ter jan 5 , 2021
Compartilhe a Verdade!Compartilhe a Verdade:  Por Gustavo Borba 05/01/2021 | 16h46   Um palestino foi gravemente ferido no pescoço nesta sexta-feira (1) por um tiro de um soldado israelense e encontra-se tetraplégico, informou o Ministério da Saúde palestino. O incidente ocorreu um mês após o Exército israelense matar a tiros […]

Siga-nos os bons

Ative o Sininho

Clique Aqui

Quem está online

Elielton Mariano
Josimar Lima
Jaques666

Você:

Teus Téritos bônus

0 Téritos

Selo

300 Téritos

People who have earned this:

error

Seja caminho para a Verdade

11
0
Would love your thoughts, please comment.x
()
x
Pular para a barra de ferramentas